Depois de 25 anos sem estudar, mulher trans encontra novo caminho com Enem
Mulher trans conquista vaga na UFRRJ após 25 anos sem estudar com o Enem.
O impacto do bullying e da transfobia
Desde muito jovem, Sabriiny Fogaça Lopes enfrentou diversas dificuldades em sua vida escolar, principalmente relacionadas ao bullying e à transfobia. Durante seu tempo na escola, ela percebeu que a aceitação entre seus colegas era uma luta constante. Por volta dos 14 e 15 anos, Sabriiny começou a entender sua identidade, e conviver com seus sentimentos era cada vez mais complicado. Enquanto as meninas a incluíam em seus grupos, a rejeição vinha principalmente dos meninos, que a isolavam.
Nesse ambiente hostil, as agressões físicas e verbais se tornaram comuns. A situação se agravou a ponto de provocar um incidente sério onde uma corda foi envolvida em seu pescoço como parte de uma brincadeira violenta. Essa experiência traumatizante não apenas marcou sua trajetória educacional, mas também sua autoestima. Esses fatores a levaram a transformar o ambiente escolar em um local tosco e insuportável, levando-a a desistir dos estudos.
Sabriiny descreve sua vivência nesse período como dolorosa e solitária, sem saber como se defender ou expressar suas angústias. A falta de suporte adequado e a sensação de não ter a proteção esperada a fizeram ver a escola como um ambiente hostil, o que a levou a tomar a difícil decisão de abandonar os estudos na adolescência.
A decisão de interromper os estudos
Após sair da escola, Sabriiny encarou a dura realidade da vida. Ela começou a trabalhar como doméstica e acabou morando na casa de seus empregadores, obtendo alimento e abrigo, mas com um salário muito baixo, de apenas R$ 180 por mês. Esta fase da vida foi marcada por desafios financeiros, os quais a afastaram ainda mais da possibilidade de retornar aos estudos.
Embora tivesse o desejo de continuar estudando, as obrigações diárias e a luta pela sobrevivência a mantiveram longe das salas de aula por cerca de 25 anos. Assim, ela se dedicou a trabalhar e, posteriormente, fez um curso de cabeleireiro, o que a ajudou a ganhar experiência e se inserir no mercado de beleza e estética, entretanto com a educação sempre como um sonho distante.
O retorno à educação aos 40 anos
Foi apenas aos 40 anos que Sabriiny decidiu que era hora de retomar sua educação. Ela iniciou esse processo pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde completou o ensino fundamental na Escola Municipal Panaro Figueira e, em seguida, concluiu o ensino médio no Colégio Estadual Barão de Tefé, ambos localizados em Seropédica - RJ.
Essa reentrada na educação trouxe novos desafios, mas também a oportunidade de recuperar a confiança perdida em sua juventude. Encontros com professores que apoiaram e incentivaram sua ressurgência deram a ela a força necessária para seguir em frente. Sua percepção em relação à educação mudou: agora, ela entendia a importância do aprendizado e valorizava cada momento passado em sala de aula, não como a adolescente insegura de antes, mas como uma mulher determinada.
A importância da EJA na formação
A EJA teve um papel crucial na jornada de Sabriiny em direção à educação superior. Foi nesse ambiente que ela conseguiu resgatar sua autoestima e entender que poderia sonhar mais alto. Os professores que encontrou, especialmente Simone Santos Viana, em Língua Portuguesa, ajudaram-na a acreditar em seu potencial. Os ensinamentos e a acolhida que recebeu foram vitais para que pudesse sonhar em prestara o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
O sistema EJA proporcionou a Sabriiny a oportunidade não só de concluir seus estudos, mas também de ter uma experiência escolar que contrastava com sua vivência anterior, ajudando-a a prosperar em um ambiente acolhedor e respeitoso.
Preparação para o Enem
À medida que se aproximava do Enem, Sabriiny dedicou-se intensamente a se preparar. Nunca tinha feito uma prova dessa natureza antes e sentia certo receio sobre o formato e as exigências do exame. Entretanto, com o apoio de seus professores, ela não hesitou em buscar ajuda sempre que surgiam dúvidas, se dedicando mesmo em fins de semana.
Simone, seu professor de Língua Portuguesa, foi fundamental nesse processo, revisando redações e exercícios, contribuindo para que a confiança de Sabriiny crescesse. Com o tempo, ela começou a se sentir mais segura a respeito de suas habilidades e, dois dias antes do exame, revisou um tema em sala que se tornou o mesmo no Enem, o que contribuiu para diminuir a ansiedade no dia da prova.
A emoção da aprovação na UFRRJ
O dia em que recebeu a notícia de que havia sido aprovada na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) foi, para Sabriiny, um momento transformador. Coincidentemente, a notícia chegou no dia de seu aniversário, um presente que reafirmou sua trajetória. O fato de ser aprovada no curso de Licenciatura em Educação Especial foi uma validação de todas as suas lutas e esforços.
Ela descreve essa conquista como um marco na sua vida, representando o encerramento de um ciclo de dificuldades e a abertura de novas possibilidades. Para Sabriiny, aquela vaga na universidade fazia parte dos seus sonhos que, uma vez interrompidos, agora se tornavam realidade. Sua empolgação e gratidão pela professoras e colegas que a apoiaram foram expressas de forma emocionada.
Desafios enfrentados na universidade
Apesar da alegria inicial, a vida universitária trouxe novos desafios. Sabriiny se tornou uma das poucas - se não a única - pessoas trans em seu curso, o que trazia uma sensação de responsabilidade enorme e a urgência em contribuir para a diversidade no ambiente acadêmico. A inclusão ainda é uma questão delicada nas universidades, e Sabriiny se sentia na obrigação de transformar essa realidade.
Seu estágio em uma creche próxima de casa foi um ponto crucial, dando a ela a chance de aplicar seus conhecimentos e ainda participar de discussões sobre inclusão no campus. O ambiente universitário, a princípio assustador, logo se revelou uma plataforma onde ela podia lutar por seus ideais e fazer a diferença.
Contribuições para a inclusão acadêmica
Sabriiny se envolveu ativamente na diretoria de diversidade do diretório acadêmico, contribuindo para debates sobre inclusão. A sua contribuição se torna ainda mais significativa pelo fato de compartilhar suas experiências como mulher trans, buscando abrir espaço para mais diálogos sobre a diversidade de gêneros nas instituições de ensino.
Estar nessa posição de destaque a ajudou a perceber a importância de sua voz e suas experiências, não apenas para sua própria jornada, mas também para acolher e apoiar outros estudantes que enfrentam desafios semelhantes.
O papel da identidade de gênero na educação
A trajetória de Sabriiny é um reflexo do impacto que a identidade de gênero pode ter na educação. Sua vivência evidenciou que as barreiras enfrentadas por indivíduos trans em ambientes acadêmicos precisam ser discutidas abertamente, visando a inclusão e a aceitação. A forma como as instituições educativas lidam com essas questões pode impactar diretamente a autoestima e o desenvolvimento de estudantes como ela.
Ela defende que a educação deve ser um espaço seguro e respeitoso para todos, independentemente da orientação de gênero. O reconhecimento da identidade no âmbito educacional é um direito fundamental que deve ser respeitado e garantido para todos os alunos. Sabriiny, agora ciente do quanto a educação pode transformar vidas, faz questão de aplicar esses princípios na sua futura carreira.
O futuro: planos e aspirações de carreira
Atualmente, Sabriiny está no segundo período de sua licenciatura e tem planos ambiciosos para o futuro. Além de concluir a graduação, ela sonha em se especializar na área de psicopedagogia. O objetivo é atuar como psicopedagoga, contribuindo para que todos os alunos se sintam acolhidos e respeitados em suas individualidades.
"Quero olhar para o estudante enxergando suas necessidades, suas dores e suas potencialidades antes de qualquer rótulo", destaca Sabriiny. Sua experiência de vida a capacita a entender profundamente o papel de um educador: acolher, compreender e orientar o aluno em sua jornada educacional. O desejo de se tornar uma profissional que acredita nas capacidades de cada estudante está em seu coração.
Ela também reconhece o poder transformador que tem a inclusão na educação, e, ao final de sua trajetória acadêmica, espera fazer a diferença na vida de muitos alunos, especialmente aqueles na comunidade LGBTQIA+ que lutam para se sentir aceitos e valorizados.
Em suma, a história de Sabriiny é uma inspiração e um lembrete do que é possível alcançar apesar das adversidades, provando que a educação é, de fato, uma chave poderosa para abrir portas e mudar realidades.


